sábado, 13 de novembro de 2010

O primeiro dia.

Eu vi o amor. Escancarado. Querendo comer e ser comido. Querendo gritar, se esparramar, se espreguiçar, derramar, correr em mim e me matar de felicidade.
Eu vi. E ele estava em mim, tão agarrado, tão meu, que ninguém pôde me tirar.
Posso contar pros meus netos o que vi, e dizer pra que eles façam o mesmo, quantas vezes puderem, quiserem, conseguirem. E não vou alertar sobre a dor de depois, ninguém deve o fazer, é uma das piores maldades desse mundo.
E doeu, como nunca nada me doeu antes. Meu jardim murchou, meu céu caiu, meu chão sumiu, não lembrava das minhas músicas preferidas, não lembrava que sentia fome de manhã, esqueci do mar, não fiz brigadeiro a tarde, não olhei pro sol, meu olhar não atingia a copa das árvores, as vezes ele não abria.
Eu morri. Simbolicamente. Mas morri.
E depois de tanto descer e morrer todos os dias, eu sorri.
Olhei pro céu e ele estava cinza, mas mais lindo que nunca, olhei e meus velhos amigos eram os mais novos que eu poderia ter, as mesmas músicas não eram aquelas, eram outras, as pessoas eram todas tristes comparadas a mim enquanto eu fazia o mesmo caminho de sempre, sorrindo como nunca.
No aniversário de um ano da semana em que fui mais feliz na vida, eu fui feliz. Depois de ter sido triste, não ficado triste.
E o que isso fez de mim? Só mais humana. Mais Isadora e menos qualquer outra coisa.

domingo, 7 de novembro de 2010

Os relógios de Dalí.

Minha dor precisa de espaço, de quebrar as paredes, de gritar um pouco mais. O silêncio, o escuro, e o cobertor de hoje, fizeram ela caber no meu quarto. E se agarrar em mim.
Hoje preciso mexer as pernas e os braços de vez em quando pra ver se ainda funcionam, preciso pensar quem fabricou o parafuso da escrivaninha, pra ter certeza que ainda penso em outra coisa a não ser nessa maldita dor.
Não foi difícil dizer 'não'. Foi previsível, esperado, calculado, inconscientemente. Na maioria das vezes não esperei muita coisa, porque não esperava muita coisa de mim. Nas vezes que sobraram, eu me sentia segura, tinha uma mão pra segurar, um telefone pra ligar e dizer boa noite, alguém pra contar as novidades e pra me abraçar quando o mundo tivesse acabando.
E o mundo acabou, dentro de mim. Meus andaimes caíram de uma vez, me senti derretendo como os relógios de Dalí. E ele não me abraçou.
O segundo tapa na cara. Não doeu tanto assim, só cimentou a dor de antes.
Nem tudo mais tem a cara dele, muita coisa não me diz nada, aqueles olhos me dizem a mesma coisa há tempos, sinto falta dos olhares de antes. Qualquer um deles.
Agora tem um medo novo, que eu nunca tive. Medo da vida. Das pessoas que estão por vir, das viagens que ainda não fiz, dos caras que ainda não conheci, dos amigos que vão se afastar, e dos que vão chegar.
Ironia ter medo da própria vida.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Meu equilíbrio.

Meu equilíbrio entre a dor lancinante e os dias em que consigo respirar? Meu equilíbrio entre a ignorância e a agudez de felicidade? Meu equilíbrio entre Nietzsche e Caio Fernando? Meus dias de Clarice? Minha vida angustiada? Meu luto? Minhas lágrimas? Meu vazio.
As vezes sinto que meu equilíbrio não existe mais, todos os meu dias encharcados de uma surpresa que não quero ter, 'será que hoje eu choro?'.
Antes tinha uma surpresa que já nem era mais surpresa, porque eu já ia correndo na frente para poder beber antes de ser oferecida a mim. Hoje a surpresa do dia me acua como o medo de cachorro bravo. A surpresa do dia me dói lá no fundo, e me deixa frágil, criança.
Ele é meu equilíbrio? Algumas vezes sim, e algumas vezes é só uma parte doída de mim, aquela que falta, que não me diz, não me olha e nem me toca. Meu equilíbrio entre meu mundo de falta e a vida real. Meu equilíbrio entre as possibilidades e o abraço. Entre dias Clarice e Caio. Entre dias de vida e de tão desejada morte.
Que já foi o motivo de minhas mortes simbólicas, é meu luto tão odiado, é minha nova dor, minha eterna cicatriz, minha sempre felicidade de última hora.
Não admito nada aquém do que já tive.
Enquanto isso tento respirar 3 vezes por semana, 1 dia de conversa instituída, 1 dia na terapia, divido um fardo com os amigos e me torturo como sempre.

domingo, 10 de outubro de 2010

Attraversiamo

Num dia tão cheio de nada e vazio de tudo, a vida me sorriu algumas vezes durante este dia. Uma onda alegre vinha me beijar, tão alegre que as vezes me dava medo, medo daqueles de chorar quietinha só pra dizer que chorou, e aí tomar a decisão certa, náuseas, àquelas iguais a das mãos dele na minha cintura, e o primeiro sorriso meu, daquele meu, e só meu. Cresci um pouquinho, de tamanho, de coração, de mim. Fui no restaurante novo, com aqueles velhos olhos molhados do nada que já me pertencia, sentei no lugar proibido, e recebi sinceros e penosos compadecimentos dos velhos olhos inchados. E me acostumei com meu nada do dia. Sabia que seria um dia de surpresa, alegria de matar saudade e medo daqueles de atravessar avenida movimentada, mas sem pensar muito, fui. Tão Isadora como nunca, e ri, achando graça de cada uma de minhas própria definições. Andei onde eu tive saudade, e queria ficar, mas estava curiosa demais pra saber o que tinha mais a frente. Bonitos olhos daquela moça. Eu queria aquele filme, não sei porque, mas era ele, e me causei estranheza por ter dito isso pela segunda vez na vida. Me sentei e me vi lá, tão frágil, desesperada, incapaz de dar ou receber, vazia de vida, de si. Minhas mortes simbólicas, e as vezes querendo colo de mim mesma. E sorri no canto. Não sabia que podia ser tão mulher, tão mais um pouco de mim por dia. "O desequilíbrio faz parte de uma vida equilibrada." Obrigada, Yoda.

domingo, 26 de setembro de 2010

O querer.

Sabe, tive uma vontade enorme de arrumar seu cabelo aquele dia. A franja caída sempre me incomodou, aquela sombrancelha atrapalhada me dava vontade te abraçar e dizer que ia ficar tudo bem. Quis te ligar e te chamar pra jantar lasanha com rúcula, tomar coca-cola e rir de qualquer coisa na TV. Quis olhar pra você por 30 segundos ininterruptos e depois ver você sorrir bobo e bravo por não entender o porque daquele olhar tão desconfiado.Quis seu abraço em volta de mim pra domir menos doída. Quis seu bom dia pra acordar mais feliz. Quis ouví-los tanto. Quis a sua mão fria e boba na minha cintura. Nunca quis tanto ouvir sua voz. Quis aquele quarto mágico e aquelas figuras dançantes. Quis ouvir um blues com você e esperar o vento que sempre vem. Quis não acordar pra não ter que mexer e tirar seu abraço de mim outra vez. Quis olhar e te ver, mas não triste daquele jeito. Não com aqueles olhos. Não com aquele cheiro que não era seu. Com aquele rosto que não era seu.
E depois de imóvel, dilacerada e perdida no meio de qualquer coisa, percebi que não éramos mais.
Nada. Nenhum de nós.
E aí gritei.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O meio

Porque pedir agora o que nunca tive? Porque implorar o que nunca me pertenceu? Aquela parte fria de mim, me disse: amor e decepção são apenas dois aspectos de um mesmo processo, minha querida. E a minha parte humana respondeu chorando uma dor morna. Não existiram palavras, reclamações, gestos, só uma lágrima duramente contida naquele turbilhão de promessas imaturamente feitas. Chorar agora por que? Pra que? Por mim? Por ele? Pelo fim do amor? Pelo fim de nós dois? Não. Agora é pela decepção, pelo não dizer nada, pelas ações impensadas. "Não vale a pena", ela me disse. Chorar pelo que, vale a pena? Por amores não correspondidos? Por bater o braço na parede de chapisco? Por não ter atendido o telefone? Por fazer mais do que deveria?
Não me dói esperar a primavera, o inverno que me congela.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Pra doer menos.

Minha dor se sabe. Sai antes de ser enxerida, acaba na poesia do meu inverno. Depois dela vem a primavera. A minha e de mais ninguém.
(continua...)